quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

UM DISCURSO PARA TER PIEDADE!


Li e lembrei-me dos tempos da guerra colonial, na Guiné, daqueles tempos de Guiléje, do célebre "corredor de Guiléje", ali mesmo junto à fronteira com a Guiné Conacry. Quando éramos atacados, nas cercanias do arame, despejávamos fogo, muitas peças de artilharia, porque a superioridade de fogo tentava esmorecer aqueles que eram tidos por "inimigos", ao mesmo tempo que a superioridade estridente, tendencialmente, atenuava a nossa própria tensão. Esta realidade que vivi cola-se ao discurso político do senhor deputado Dr. Carlos Rodrigues (PSD), figura que não tinha nascido aquando do auge da guerra e apenas dois aninhos à data do 25 de Abril. Certo é que, ao longo de muitos anos, ouvi discursos absolutamente descabelados, porém, este, está entre os mais grosseiros e grotescos de um passado de 42 anos de Autonomia. 

Foto ASPRESS/DN-Madeira

O senhor deputado, depois de uma despropositada citação de António de Oliveira Salazar, dirigiu-se ao Primeiro-Ministro e a Carlos César líder parlamentar do PS na Assembleia da República. 
Ao Dr. António Costa falou de "oportunismo e desfaçatez (...) que a sua verdadeira natureza é ardilosa, manipuladora, conspirativa, manhosa e matreira (...) é a personificação da esperteza fugaz e saloia que glorifica o embuste e a artimanha como formas de vida e de acção (...) um usurpador inveterado, um oportunista sem paralelo (...) é um divisionista, segregacionista, com um discurso perigoso (...) recorrendo a mentiras, falsidades, manipulações e aleivosias. É a perfídia em todo o seu esplendor (...) é grosseiro, presunçoso e ainda vem exigir que nos retratemos pela mais do que acertada reacção à sua desengonçada e trôpega atitude. (...) é o descaramento descontrolado, a desfaçatez despudorada e o cinismo desavergonhado (...) é um verdadeiro prestidigitador, um mágico de feira popular". (...) E teve, nesta investida, a colaboração do seu sátrapa de estimação. O mais notável alpinista social e político da história democrática portuguesa. O seu líder parlamentar, Carlos César. (...) Madeirenses e açorianos sabem muito bem qual o tratamento correcto a aplicar a traidores desbocados e sem princípio. (...) Foram quase 600 anos de extorsão contínua, de exploração intensiva, em que a Região Autónoma da Madeira foi, sistematicamente, espoliada e saqueada pela metrópole insensível que jamais demonstrou qualquer tipo de consideração pela grave situação e pelas miseráveis condições de vida dos madeirenses (...). Os senhores devem-nos não um pedido de desculpas, mas um abandono imediato e definitivo da vida pública, pelo menos no que à Madeira diz respeito".

Alguns colegas de bancada esboçaram sorrisos à medida que o fogo saía, outros, pelas imagens, estou certo, sentiram-se politicamente enxovalhados. E se esta é a minha convicção, não estarei longe que milhares de madeirenses e porto-santenses não assinam por baixo intervenções desta natureza. Simplesmente porque no exercício da política não vale tudo. Li e guardei um texto de Eugénio Guerreiro (imaginem, do Jornal de Angola) que se questionava: "Será mesmo que não há limites para a acção política e o discurso dos nossos actores políticos? E que limites são estes para além do que é apregoado pela Lei? A Ética, certamente. A História também". Nem mais. Necessário se torna conhecer a História, assumir um comportamento ético e demonstrar elevação, eu diria EDUCAÇÃO. Porque, por maiores e mais sustentáveis que sejam as razões que assistam a um dos lados, o político tudo perde quando entra pela via da língua suja, da ofensa, do metralhar de palavras acintosas, intencionalmente procuradas no dicionário vilipendiador.  
Sinceramente, não sei o que alguns pretendem com aquele tipo de provocação. Inclino-me para uma leitura enquadrada em um certo desespero político, onde, perdidos a remos e a velas, a língua afiada dos velhos tempos tende para pior, exactamente, como na guerra, na tentativa de uma superioridade de fogo que atenue a tensão. Só pode ser isto. E no meio dos "morteiros" que, certamente, passam por cima de S. Bento ou rebentam por perto, quem sofre é a toda a Região. Não por represálias, porque acima do governo da República estão outros Órgãos de Soberania para além do escrutínio diário da comunicação social, mas porque não ajudam na negociação de dossiês que ultrapassam a esfera de competências dos órgãos de governo próprio da Madeira. Aquele tipo de discurso foi um chão que deu uvas (se alguma vez deu!), ou, melhor dizendo, de tanto repetido, muitos sabem o que gasta a dita casa. Uma casa que, muitas vezes desprestigia a Democracia, e que não se dá ao respeito, daí que, questione, poderá merecer um olhar de aceitação? Quanto muito de comiseração. 
Escreveu Alexandre Cristo, Observador: "A qualidade de uma democracia republicana mede-se, entre outras vias, pelo comportamento dos seus representantes, tanto governantes como parlamentares. Isto porque os nossos regimes liberais não são apenas compostos de regras, leis, instituições, freios e contrapesos. O cumprimento da lei não chega – de nada servem as regras e as instituições se umas não forem cumpridas e outras não forem respeitadas, mesmo quando assim a lei o permite. Os regimes liberais distinguem-se, para além da forma de governo, pela sua dimensão moral. Estão suportados em pilares éticos e são mantidos por quem acredita nos valores da liberdade, igualdade, justiça, dignidade humana, diversidade, tolerância. E, como tal, a credibilidade de um sistema político perante os cidadãos assenta, também, no reconhecimento do respeito por esses valores por parte dos seus representantes – e não, somente, no cumprimento da lei e das regras, pois algo ser legal não significa que seja ético". 
Por aqui fico.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O ACORDO MORTOGRÁFICO


A petição “Cidadãos contra o ‘Acordo Ortográfico’ de 1990” é amanhã (hoje) debatida na AR, bem como um louvável projecto de Resolução do PCP. A petição “Cidadãos contra o ‘Acordo Ortográfico’ de 1990” é amanhã debatida na AR, bem como um louvável projecto de Resolução do PCP, o único que recomenda o recesso de Portugal do AO, outras medidas de acompanhamento e uma nova negociação das bases e termos de um eventual Acordo Ortográfico.

Dr. António Bagão Félix, in Público
Com base nesta amálgama ortográfica, no que leio e no que até já vi ensinado (!), ficcionei um texto-caricatura para ilustrar este absurdo na nossa língua escrita. A bold assinalei as aberrações endógenas e toda a gama de facultatividades do AO e, em itálico, realcei erros resultantes da total confusão do “pós-acordismo” e todos os dias vistos nos jornais e televisões. Ei-lo:
A receção do hotel estava cheia e o recetor não tinha mãos a medir. Agora que a recessão já não é um fato, ninguém para o turismo. A fila era de egípcios do Egito que não têm o “p” no nome do país porque lhes disseram que a concessão do visto dependia da conceção do mesmo. Entre eles, alguns eram cristãos coptas, perdão cotas.
O hotel tinha dois restaurantes tão suntuosos quanto untuosos: o cor-de-rosa e o cor de laranja (este sem direito a hífens), porque o diretor mandou adotar o AO. Quer dizer, foi uma adoção sem adoçar o citrino. Os coutentes não ficaram contentes.
Um dos egípcios (um ator atormentado) perguntou se havia produtos lácteos dos nossos laticínios. Tudo isto por causa de um “c” que tanto faz parte, como não faz parte do leite.
Outro dos turistas que se havia zangado quis retratar-se e, para isso, resolveu retratar os amigos com uma “selfie”. Um outro rececionista (semi-interno e semiletrado) e que mais parecia um espetador, distraiu-se e picou-se num cato que, esse sim, era um doloroso espetador. Ficou com as calças semirrotas que lhe levariam parte do salário semilíquido.
Outro, por acaso um cocomandante – que tinha sido corréu porque correu no Cairo que era corruto – estava com um problema ótico e queria um médico. Tinha uma infeção que, mesmo sem o “c”, teimava em ser infecciosa. Foi-lhe sugerido ir a um hospital. O turista lá foi e, num dos corredores em forma de semirreta onde cruzou com um marreta, depois de passar pelas zonas infantojuvenil e materno-infantil (outra vez os hífens…), viu uma seta para a esquerda com “doenças óticas” e outra para a direita também com “doenças óticas”. Coisas de arquitetos ou arquitetas. Baralhado, virou para a direita. Foi visto por um oftalmologista quando precisava de um otorrino para o ouvido. Lá está: caiu o “p” ocular, que já tinha sido dispensado no auricular!”. O melhor é o míope ser surdo e vice-versa.
Por causa do facto transformado erradamente em fato, aumentou a gama dos fatos: há o fato tributário que assenta que nem uma luva. Há a união de fato mesmo que sem ele. Há o fato consumado que leva a que a Crimeia seja russa de fato. Os turistas ficaram encantados com tantos fatos no Verão.
Entretanto, foi desligado o interrutor do elevador porque precisava de uma interrupção para uma inspeção.
O diretor do hotel, preocupado, fez uma reunião e ficou de elaborar uma ata que nem ata nem desata. É que o seu corretor ortográfico também não ajudou e por isso pensou pedir ajuda a um amigo corretor da Bolsa. Acontece que, mesmo com tato, não encontrou logo o contato dele. Quando o conseguiu, o corretor ficou zangado dizendo-lhe “eu cá não me pelo pelo pelo de quem para para desistir”. Houve uma grande deceção na secção e, perentoriamente, falou-se numa rutura. No fim, porém, feita a arimética das contas, tudo acabou num pato de afetos.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

OBRIGADO










O Mundo é cada vez mais pequeno e o leque de amizades, virtuais ou não, é cada vez maior. Ao longo do dia de ontem, via FB, tive essa sensação muito agradável. A tecnologia aproximou-nos de tal forma que, qual paradoxo, acabamos por estar juntos embora distantes. O meu OBRIGADO a todos quantos me felicitaram. Afinal, apesar de adolescente (6+9=15), tenho muitos Amigos, com A maiúsculo, que andam por aí e, no dia certo, batem à porta. Uma adolescência, como prova a fotografia (!), que continua cheia de entusiasmo na perspectiva de uma nossa terra onde a verdadeira felicidade não seja medida, apenas, pelo número de toneladas de cimento, de areia ou de carros. Que os jovens, os adolescentes, de facto, persigam a UTOPIA, enquanto caminho sem fim. Que tenham presente que no meio desta ilusória abundância, por entre becos e veredas, há "Gente Feliz com Lágimas" - João de Melo, 1988. A todos os meus Amigos, repito, OBRIGADO. E peço-lhes desculpa, por dever social, nem sempre corresponder no vosso dia, com um aceno de simpatia. Coisas de "adolescente", como compreenderão. Finalmente, retribuo-lhes os votos com uma breve frase: que a saúde vos acompanhe e que a força interior esbata todas as vicissitudes da vida.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

COMO SE FAZ UM CANALHA


Por José Soeiro, in Expresso Diário 
16/02/2018)

No mais recente filme de João Salaviza, um dos mais reconhecidos e brilhantes realizadores portugueses da nova geração, chama-se “Russa” e acontece no bairro do Aleixo, no Porto. Ao mesmo tempo que o filme estará em competição em Berlim, bem acompanhado por outras obras portuguesas, 948 delegados e delegadas juntam-se no Congresso do PSD que consagrará Rui Rio como novo líder do partido.


Há imagens que não se esquecem e que definem as pessoas. Uma delas é a de Rui Rio num barco, no Rio Douro, a abrir uma garrafa de champanhe com os seus convivas enquanto assiste à demolição de uma das torres do Bairro do Aleixo. No bairro – sei-o porque estava lá – o clima era de desespero, com um enorme aparato policial montado, mulheres que gritavam de raiva ao ver a sua casa ser implodida, homens a chorar junto ao gradeado enquanto o pó dos destroços se espalhava, crianças atónitas junto ao lugar onde até há poucos dias brincavam e que parecia, agora, um cenário de guerra. Se acaso a demolição daquelas torres tivesse sido negociada com a população, talvez um Presidente da Câmara estivesse junto aos moradores naquele momento, de consciência tranquila por ter cumprido o seu dever e garantido uma alternativa para a vida daquela gente. Se não fosse esse o caso, uma pessoa normal que tivesse tomado convictamente aquela decisão teria ao menos o pudor de se remeter ao silêncio perante o sofrimento dos outros. Rui Rio não fez uma coisa nem outra. Foi para a frente do bairro, no aconchego de um barco no meio do rio, juntou os amigos e celebrou, frente aos cidadãos desesperados da sua cidade, o momento em que as suas casas a vinham a baixo. Perante o sofrimento dos outros, Rui Rio sorriu e brindou. Independentemente do que cada um possa pensar sobre as soluções para o Aleixo – e há muitas opiniões – uma coisa parece-me estar para além das discordâncias políticas: quem faz isto é um canalha. E eu, como muitos outros, não esqueço.
Talvez por isso as palavras de Salaviza, que não é do Porto mas esteve pelo Aleixo para fazer o seu novo filme, sejam tão contundentes: “Rui Rio é uma espécie de papão, de pesadelo que assombra a memória dos moradores do Aleixo.Trata-se de um tipo tenebroso e sinistro que decidiu brincar com a vida de centenas de pessoas para ceder aos interesses da especulação imobiliária. Há uma imagem dele muito paradigmática quando, na demolição da torre, o vemos no Douro, num barco de luxo a fazer uma pequena celebração com champanhe e abrindar à demolição. Ele transforma aquele momento de aniquilação de uma comunidade numa celebração. E é este tipo que tem esta forma de estar na política e de jogar com a vida das pessoas que quer ser primeiro-ministro de Portugal…”.
Não é a primeira vez, aliás, que o caso é tratado por um filme. Quem quiser perceber o processo do Aleixo deve ver “Ruído ou As Troianas”, do realizador portuense Tiago Afonso. Está lá tudo: a origem do bairro e de quem foi para lá, a explicação cristalina – através de uma imagem da marginal do Porto – para o apetite imobiliário por aqueles terrenos, a revolta contra o modo como o poder autárquico tratou aquelas pessoas, a dignidade das mulheres que resistem, o modo como as crianças representam aquele espaço, o ambiente vivido no dia da demolição, a relação de tudo isso com a cidade. Num registo diferente, é também no Aleixo que se passa Bicicleta, um filme de Luís Vieira Campos, com argumento de valter hugo mãe, do qual guardo a imagem de umas intermináveis escadas, num bairro em que, propositadamente, a Câmara deixou de consertar o elevador, condenando as pessoas a terem de viver como um sacrifício as mais singelas necessidades do dia-a-dia.
Sobre o mal que Rui Rio fez ao Porto e sobre os mitos acerca da sua governação no Porto, não repetirei o eloquente resumo feito por Adriano Campos. Também não tenho grande esperança que Rui Rio vá alguma vez ver algum destes filmes – ou que se deixasse transformar por eles, caso os visse. Direi apenas isto: ninguém deve querer para o seu país aquilo que Rui Rio fez com quem mais sofria no Porto. E este é um bom fim-de-semana para o lembrar.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

TAMBÉM NA CÂMARA DO FUNCHAL O DR. PEDRO CALADO APRESENTAVA LUCROS!!!


Não entro nessa polémica Madeira vs Açores. Quando dá jeito, a Madeira é apresentada como região singular; em outros momentos, na mó de baixo, os governantes tentam, das duas, uma: ou desviar as atenções ou, então, chutar para Lisboa as responsabilidades. Já não há pachorra para este entranhado formato de fazer política. Libertem-se, por favor.


Ontem, o primeiro-ministro lamentou o facto do défice da Madeira ter agravado em uma décima o défice do sector público administrativo. Hoje, o vice-presidente do governo regional da Madeira, Dr. Pedro Calado, veio exigir um pedido de desculpas de António Costa aos madeirenses. Atirou-se como se a casa local não tivesse telhados de vidro. Pedido de desculpas, porquê? Compulsando a história do processo, não será verdade que o défice da Madeira é sete vezes superior ao dos Açores? Não é verdade que, ao contrário dos Açores, os madeirenses e porto-santenses estão a pagar impostos sem um diferencial que poderia chegar aos 30%? É falso ou verdadeiro que a Região escondeu mais mil milhões de dívidas e que o valor global da dívida chegou aos 6.3 mil milhões? Pedir desculpas porquê? 
Mas tudo isto, embora preocupante, porque influenciará, por muitos anos, a vida colectiva da Região, não teria uma dimensão política relevante, quando a agressividade discursiva pode colocar em causa a solução de vários dossiês. Pessoalmente, entendo que a Madeira deve discutir de igual para igual, sem qualquer vénia de chapéu na mão, porém, nunca com as mãos cheias de pedras. Essa forma de actuação não é facilitadora de nada. As negociações tornam-se mais difíceis, todos compreendemos.
E quanto às contas... quando o Dr. Pedro Calado foi vereador da Câmara do Funchal, a autarquia dava lucro! Li várias vezes declarações nesse sentido. Eram as suas contas. Porém, em 2013, verificou-se que a dívida da Câmara do Funchal, afinal, era superior a 100 milhões de euros! Enquanto cidadão, leio as suas declarações e fico, agora no governo, com o mesmo pressentimento. 
Finalmente, talvez fosse preferível uma certa contenção discursiva. Ainda esta semana o DN deu conta, que em apenas três meses, o vice-presidente do governo contratualizou 19 funcionários políticos para o seu gabinete. Ficou-se também a saber que o vice-presidente dos Açores, para nove ilhas, nomeou, apenas, sete para o seu gabinete. São os tais telhados de vidro que deveriam exigir outro tipo de comportamento. Porque uma coisa é, eventualmente, dizer, com números, que a apreciação do governo da República não é correcta; outra é a forma e o tom agressivo como se equaciona. Uma é o saudável combate político; outra, é regressar aos tempos de Jardim.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O QUE SE PASSARÁ COM A CABEÇA DO CARDEAL?


O argumento posto a circular, a propósito da proposta de continência sexual sugerida aos “casais irregulares”, pelo cardeal patriarca de Lisboa é o de que se trata de um assunto interno da Igreja Católica Apostólica Romana, que só diz respeito aos seus membros. Este argumento defendido por algumas vozes que vieram em defesa do cardeal, faria algum sentido se a Igreja não se sentisse no direito de considerar os seus valores como devendo ser de todos, tentando impor as suas regras em matéria como divórcio, homossexualidade, adoções, eutanásia, interrupção voluntária da gravidez a católicos e não católicos, sob a forma de código penal, impondo a todos o seu próprio código moral. Mal estaria o mundo se os valores só pudessem ser questionados pelos membros de cada clube.


Não há na nossa sociedade duas escalas de valores e, a Igreja, que se sente no direito de condicionar toda a sociedade não pode levantar muitos em sua defesa, quando tenta evitar que a sociedade a influencie.
Seria interessante conhecer em que circunstâncias a Igreja admite o divórcio ou, para ser mais preciso, a nulidade do casamento, excluindo, é claro, a cunha, coisa que também existe nos divórcios da Igreja. No passado houve mesmo um ex-embaixador junto do Vaticano que já depois de reformado ainda ocupou um alto cargo no Estado, nomeação feita por um ministro agradecido pela ajuda que recebeu do embaixador na anulação do seu casamento.
A verdade é que os motivos que levam quase 100% dos casais a divorciarem-se não são contemplados no direito canónico. A partir do momento em que um casamento se realiza em condições normais e seja consumado quase nada é aceite como motivo de divórcio. Seria interessante se o cardeal apresentasse estatísticas de divórcios canónicos, por exemplo, em casos de violência doméstica. Aliás, todos sabemos qual a posição dos padres em relação a uma mulher que se queixe de violência doméstica, não é certamente a proteção da vítima.
Uma mulher que se divorcie por ser violentada ou mesmo violada pelo marido e volte a casar dificilmente conseguirá anular o seu casamento celebrado pela Igreja Católica, por aquilo agora ficámos a saber ou a mulher continua a aceitar a violação e a violência santificada pelo sacramento do casamento ou é forçada à abstinência sexual, sob pena de ficar excluída da Igreja, isto é, fica condenada a uma exclusão que não sendo equivalente à excomunhão corresponde a uma marginalização caluniosa no seio da Igreja.
Na telenovela “Tieta do Agreste”, baseada num romance de Jorge Amado, há uma personagem que se chama Modesto Pires que sendo casado mantinha uma “teúda e manteúda”. A determinada altura a amante e a esposa decidiram fazer uma greve de sexo que levou o Modesto Pires ao desespero. O desespero era tanto que o Modesto perguntava aos amigos se não havia o risco de “aquela coisa” lhe subir à cabeça.
Começo a achar que os receios do Modesto Pires tinham alguma razão de ser, a obsessão dos padres da Igreja Católica em relação ao sexo marca tanto a Igreja, estando no centro de tantas das suas decisões, que a explicação só pode corresponder aos receio do Modesto Pires, aquela coisa não sai por via das relações sexuais e sobe à cabeça dos nossos padres ciosos da sua castidade.

NOTA
por estatuadesal (In Blog O Jumento, 12/02/2018)

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

ORA BEM... POLÍTICAS "INCONSEQUENTES"


É óbvio que, para quem desempenha o papel de vereador da oposição, tem de olhar para as situações e denunciá-las, ao mesmo tempo que, espera-se, em contraponto, uma posição propositiva. O "jogo" democrático assim o exige. Porém, há um aspecto que deve ser tido em conta e que se exprime em uma só palavra: memória. Se, no tempo certo, um político não levanta a sua voz, mesmo estando no poder o partido com o qual se identifica, parece-me falho de credibilidade quando, mais tarde, se apresenta em tom crítico relativamente a situações face às quais deixou o marfim correr. 


Ora, o desordenamento das zonas altas do Funchal tem uma paternidade, exactamente quem o permitiu durante trinta e sete anos consecutivos de maiorias absolutas. O silêncio que perdurou, os remendos introduzidos, as cumplicidades das Juntas de Freguesia que não alertaram, a ausência de coragem política para travar a construção de génese ilegal, os ouvidos de mercador perante tantos que solicitaram um plano integrado de desenvolvimento, faz parte de um rosário de muitas contas. Por isso, vir agora falar de políticas "inconsequentes" quando essas partiram de um partido, hoje na oposição, parece-me desajustado e à revelia de um mínimo de respeito político por si próprios.
Corrigir o desordenamento das zonas altas do Funchal levará tantos anos quantos aqueles que temos de democracia.Não sei se chegarão. E se houver muito dinheiro disponível!
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

SAÚDE - "A MUDANÇA DE PROTAGONISTAS VAI MESMO ACONTECER"


"O Dr. Duarte Nuno Dória foi afastado da Comissão de Dissuasão da Toxicodependência. A saída, que não resulta da vontade própria, acontece três dias depois ter dado uma opinião muito crítica, no DIÁRIO, do último domingo, sobre o que se passa na área da Saúde e dos Assuntos Sociais". Fonte: DN-Madeira. Perante uma fotografia de um corredor cheio de macas, o gestor falou de "caos",  da inexistência de planos de contingência, questionou: "o que faz o secretário da Saúde e a sua colega da Inclusão e Assuntos Sociais", reflectiu sobre as "altas problemáticas" que parecem ser um terreno de ninguém, e terminou com frontalidade: "a renovação falhou. A fase das reciclagens falhadas já acabou e a mudança de protagonistas vai mesmo acontecer". Posto isto: rua!

Pois é, o Dr. Duarte Dória foi verdadeiro, para além daquilo que quem está lá em cima aceita ou tolera como desabafo. Não disse nada que o comum dos cidadãos não saiba e que, aliás, é notícia ou motivo de peças jornalísticas quase todas as semanas. Leu, apenas, a fotografia e foi sincero, repetindo por suas palavras o desastre do sistema de saúde. 
Ao gestor, a hierarquia política não concede direitos de cidadania e de verdade. Por isso foi afastado ou convidado a sair da Comissão de Dissuasão da Toxicodependência. Isto depois de ter sido, em 2015, um fervoroso apoiante do Dr. Miguel Albuquerque. Nessa altura de campanha disse: "O dr. Miguel Albuquerque é claramente o político madeirense que tem o discurso sobre a Saúde mais bem estruturado. E tem tido uma sensibilidade muito especial para todos os problemas que tem tido conhecimento." Enganou-se. O tempo determinou que a sua leitura estava errada ou, então, há aqui dois aspectos, em alternativa, que deveriam ser politicamente esclarecidos: ou a iniciativa de afastamento partiu do Dr. Miguel Albuquerque, ou, o secretário regional da Saúde não gosta de quem o confronte com a realidade. Seja como for, tratando-se de uma figura com responsabilidades no SESARAM, há que aguardar por uma posição do grupo parlamentar do PSD, para ouvi-lo sobre os contornos desta situação que, julgo eu, está muito para além da aparência, grupo que tantas vezes é célere em procurar as razões de tudo e mais alguma coisa. Então, quando se trata da oposição...!
Ilustração: Dnotícias e Youtube

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

PARABÉNS, CARLOS PEREIRA


Na política há duas palavras que me fazem sair do sério: interesses e ingratidão. Os partidos políticos estão muito à mercê de ambas. O jogo nos bastidores, as artimanhas meticulosamente construídas, os interesses em afastar e matar politicamente quem, eventualmente, faz sombra ou, simplesmente, de quem não se gosta, toda a engrenagem que se encontra por detrás do palco, mais complexo que um tabuleiro com peças de xadrez, que conduz a muitos venderem a sua consciência aos bocados, porque estão em causa interesses empresariais e ou obediências por favores ou posições atribuídas, tudo isto me repugna. Da mesma forma a ingratidão, como consequência. Quem não se vende, os intelectualmente sabedores e honestos, aqueles que pautam a vida pelo rigor e pelo conhecimento, que não têm medo de enfrentar o futuro, porque conhecem o terreno e os escolhos, que não andam com o  nariz colado ao joelho, que constroem e deixam a sua marca alicerçada na qualidade que rejeita os medíocres e interesseiros, estes são, implacavelmente, afastados. Como vulgarmente se diz, fazem-lhe a folha, devagarinho, com tempo, semeando e regando a mentira, criando o ambiente até o golpe final.

O último dos preferidos pelo povo é que ganhou. Por que será?

Na "primeira oitava" do recente congresso socialista, não posso conter as palavras em favor de um Amigo que muito estimo e considero. Não apenas no plano político. Mesmo distante da Região, segui o desenrolar dos trabalhos. E tenho que o dizer: parabéns, Amigo Carlos Pereira. 
Dirijo-me a si. Sabe, Carlos, tão bem quanto eu, que "não ofende quem quer, mas quem pode", não é assim? Pois, a consciência do trabalho realizado, a luta pela não ingerência nas questões internas e regionais do partido, a ausência de qualquer referência, com substância elogiosa ao anterior presidente e restante direcção do PS-M, (absolutamente deselegante, mas percebo, ora se percebo que não foi um deslize!) no decorrer da intervenção de Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta do PS Nacional, sei lá, braço direito ou esquerdo de António Costa, toda esta mixórdia conduz-me à leitura, Amigo Carlos, que tudo foi pensado ao pormenor. António Costa não teve coragem de vir ao Congresso. Ele lá saberá as razões políticas do que terá gizado com outras conivências. 

E tudo isto porquê? Pelo facto do Carlos, em 2015, ter assumido um claro NÃO à oportunista candidatura de Bernardo Trindade como cabeça de lista pela Madeira. A autonomia estatutária venceu a decisão unilateral de António Costa. O Carlos sabe que nesse momento assinou o documento da guerra e não um tratado de paz. E a bomba deflagrou agora. Há muito que ela vinha a caminho à velocidade dos interesses e do "afastamento" pela via "democrática". 

Retomo o meu pensamento. Esse foi o momento-chave da "condenação" de Carlos Pereira, de sempre um dos mais brilhantes parlamentares da Madeira. Manobraram, sentaram-se à porta e esperaram que o funeral passasse. E já passou! Seria bom que alguns tomassem consciência de um outro provérbio bem português: "o acerto de hoje é o erro de amanhã". 
Frequentemente, interrogo-me, se não será estranho que um dos melhores, o mais bem preparado em assuntos de economia e finanças, de onde depende tudo ou quase tudo, presença quase diária na comunicação social pelo seu sentido propositivo e sustentado técnica e politicamente, aquele que trouxe o PS de uma situação muito complexa para um patamar de credibilidade e notoriedade política e social, seja afastado e até, pasmo, pedido por uma alminha pequenina, a sua expulsão do partido. Isto leva-me a pensar na pequenez desde as alminhas de paróquia até aos engravatados, tidos por referências sebastiânicas e que agora surgem entre o denso nevoeiro. Que não se esqueçam, uns e outros, a figura triste que fizeram (que estão a fazer) e que "onde comem, deixam migalhas". E são esses sobejos que permitem diversas leituras, desde o porquê de agora surgirem até ao que lhes move(u). O tempo, grande mestre que é (o PS-M tem a obrigação de ganhar em 2019), estou certo, devolverá ao Dr. Carlos Pereira a dignidade e o reconhecimento político pelo trabalho realizado que abriu portas à vontade de mudança. Dignidade e reconhecimento que o povo reconheceu (vide sondagem), independentemente dos enquadramentos políticos de quem se pronunciou. Saiba o António Costa, a Ana Catarina e outros que "há mais marés que marinheiros". 

NOTA

A minha crítica ao Dr. António Costa enquadra-se enquanto secretário-geral do PS. Nada tem a ver com o trabalho que está a realizar enquanto Primeiro-Ministro em prol de Portugal.

Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

QUEM PAGA A CORRUPÇÃO? O POBRE!


Este vídeo é de 27 de Janeiro. Ontem, Francisco voltou a falar da corrupção, insistindo que quem a paga é o pobre. Trata-se de um recado, oportuno, para a toda a sociedade e, subtilmente, também para o interior da Igreja. Talvez, por isso, por aí se levantem vozes contra Francisco.

 

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

CORRUPÇÃO, ATÉ NOS ÓRGÃOS DE SOBERANIA...


É evidente que não se pode tomar a parte pelo todo, mas o que se está a passar causa preocupação e até descrença e revolta. O fenómeno da corrupção existe, é verdade, um pouco por todo o Mundo. Nesta leva, aqui por perto, um Juiz, um Desembargador, um Procurador do Ministério Público, Advogados, banqueiros, secretários de Estado sob indícios de utilização abusiva de cartões de crédito, um Reitor de uma universidade privada por desvio de três milhões de euros, funcionários, roubo e falsificação de cheques na Segurança Social, políticos, entre outros, do topo da hierarquia, grandes empresários, dirigentes de clubes desportivos, eu sei lá, gente que deveria ser referência para a sociedade, afinal, alegadamente, pelo vil metal, corrompem ou deixam corromper-se. A Justiça o dirá. Se disser. A quem estamos entregues! É que não se trata de assuntos de somenos importância, antes denunciam redes de interesses diversos, muitos milhões em jogo, em um claro salve-se quem puder. E o que é mais relevante e preocupante é que nem os representantes da Justiça estão fora desta apetência pelo dinheiro fácil, embora, até sentença transitada em julgado, todos sejam considerados "inocentes".


Alguns dirão que sempre foi assim, que estranho seria que entre homens e mulheres a corrupção não existisse. Ávidos pelo bem-estar rápido, resultado do dinheirinho arrecadado de forma ilícita, por debaixo da mesa, corruptos e corruptores não olham a meios para atingir os seus fins. Mesmo sabendo que, hoje, pelo jornalismo de investigação e pela denúncia, fácil se torna serem descobertos. 
A vergonha pública que é um Procurador sentar-se à frente de um seu colega para explicar as manobras eventualmente criminosas; a vergonha de um Juiz Desembargador assistir a inspectores da Polícia Judiciária procederem a buscas na sua própria casa, acompanhados de um colega juiz que, talvez, trate por tu. Portanto, só por aqui, como acreditar nas instituições, porque as instituições são, também, as pessoas que lá desempenham funções, neste caso, nas constitucionalmente consideradas por Órgãos de Soberania? Como acreditar em certos Acórdãos, quando, sublinho, alegadamente, segundo a comunicação social, alguns são "comprados". Este é um quadro preocupante e devastador. Deixa a marca da desilusão ao vermos tais figuras a chafurdar na lama da indecência. E se isto é assim na montra o que não irá no armazém, questionará qualquer cidadão. 
A porcaria anda por aí espalhada. Tudo é objecto de transação. Tudo se vende e tudo se compra. Até a consciência, a verticalidade e a honestidade. Uma vergonha que nos deveria, colectivamente, fazer levantar a voz.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O NAVIO POLÍTICO DA GOVERNAÇÃO ESTÁ A METER ÁGUA, MUITA ÁGUA E A ASSEMBLEIA NÃO É UMA ESCOLINHA...


A Senhora secretária do Ambiente e Recursos Naturais, Drª Susana Prada, munida de uma garrafa de vidro, presumo, cheia de água, foi à Assembleia Legislativa entregá-la ao presidente do primeiro órgão de governo próprio. Motivo: simbolicamente, sensibilizar os deputados a não beberem água adquirida em garrafas de plástico. Resposta do presidente da Assembleia: "Não se vai fazer discriminação aqui dentro. O que vai acontecer agora é que há a opção dos senhores deputados consumirem também água da torneira (...) a água que melhor entenderem”. Pois, sempre foi assim, logo uma visita em vão!


Parece-me que a equipa responsável pela política ambiental e dos recursos naturais tem pouco a fazer. O mesmo direi do presidente da Assembleia. A ideia que fiquei foi a de um número político para a comunicação social. 
Justificava-se, desde há muito, e justifica-se, sim, uma grande e CONTINUADA acção de consciencialização e promoção da nossa água (o Dr. Raimundo Quintal fartou-se de falar disso), que há muito deveria ter sido iniciada, relativamente ao grau de pureza provada em contínuas análises laboratoriais, quando comparada com águas engarrafadas (um logro); justificava-se, desde há muito, e justifica-se dar a conhecer, por conseguinte, que a água fornecida à população, é segura e mais controlada que as engarrafadas, clarificando, em simultâneo, as consequências negativas da água e do plástico quando expostos ao calor e ou variações de temperatura; mais, ainda, justifica-se, desde há muito, a sensibilização para a gravidade ambiental do plástico, os custos de reciclagem e até no que concerne ao preço para o consumidor. Esperava, desde há muito, e espero que trilhem de forma consistente o caminho da sensibilização. 
Ora, eu que deste sector apenas domino o básico que qualquer cidadão deve conhecer, portanto, com todas as limitações técnicas e científicas da minha parte, fico pasmado que aquelas, entre outras, sejam preocupações (óbvias) com um atraso de dezenas de anos. Se, porventura, a secretária fizesse, no quadro de uma estruturada preocupação de longo prazo, um périplo pelas grandes empresas nacionais que engarrafam e ou distribuem água, sensibilizando-as para o vidro em detrimento do plástico, no mínimo, julgo que se trataria de uma acção meritória merecedora de aplauso, embora, por um lado, tal deva competir ao Ministério do Ambiente, por outro, quando se sabe que a complexidade dos interesses económicos em jogo (indústria milionária) muito dificilmente venha substituir o plástico pelo vidro. E como resolver outras situações, a de todos os outros líquidos ou não, fornecidos em recipientes de plástico, desde refrigerantes, a óleos passando pelos detergentes? 
Daqui, concluo, que no quadro da Autonomia política e administrativa, a ida à Assembleia, não para apresentar LEGISLAÇÃO regional, limitadora da utilização do plástico, mas apenas para entregar uma garrafa de vidro solicitando que os senhores deputados não bebam água proveniente de garrafas de plástico, mesmo considerando o simbolismo da iniciativa, acaba por ser pobre, politicamente, muito pobre. E a prova está na declaração do presidente da Assembleia: "não se vai fazer discriminação aqui dentro". E pertencem ao mesmo partido político!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 27 de janeiro de 2018

TOTÓS QUE LADRAM E ATRASADOS MENTAIS


Não posso deixar passar em vão um texto que, lamentavelmente, fala de totós e indivíduos que ladram. Sobretudo quando parte de uma pessoa com responsabilidades políticas. Ser chefe de gabinete, ou qualquer outra coisa na Administração Pública, implica decoro, reserva, discrição, não utilização de uma rede social para dirigir ataques, directos ou indirectos, a outros de quem se discorda no plano político. É mau, é feio, é desprestigiante. Compromete quem dirige tais dislates, como coloca em causa a hierarquia superior. 


Depois, o exercício da política, quer no poder quer na oposição, exige o salutar contraponto, porém com elegância e fundamento, com as armas da palavra e não da ofensa. De resto, a Região passou trinta e tal anos sujeita a formas discursivas excessivamente agressivas, intolerantes, malévolas e geradoras de medo. Copiar esses formatos quase significa que os interiorizaram, de tal forma que os repetem sem pensar. Quase como assumir que esta é a minha vez! Liminarmente, rejeito, e sinto-me profundamente incomodado quando os impropérios saem da boca de uma pessoa antes oposição. Vou mais longe, porque, repito, a minha consciência dita que não devo silenciar-me. O Partido Socialista da Madeira, com responsabilidades em várias autarquias, não pode assumir um comportamento igual a outros sem filtro. Uma coisa é ser contundente, outra é ser malcriado. Para mim é inaceitável. Fui autarca e passei pela Assembleia, nunca me senti totó, tampouco ladrei ou chamei outros de atrasados mentais. Nem alguma vez considerei os meus adversários políticos dessa maneira. Tão grave para fora quanto um outro designa, para dentro, os próprios camaradas de partido de "canalhas e nojentos". INTOLERÁVEL. Porque me sinto envergonhado, embora nada tenha a ver com a pessoa em questão, mas porque a minha opção política é clara, peço desculpa a todos quantos se sentiram ofendidos.


NOTA COMPLEMENTAR

Da mesma forma que é intolerável o vice-presidente do governo, no recente debate sobre o novo hospital, acusar o Primeiro-Ministro António Costa de "vigarice". Isto em uma altura que o diálogo e a diplomacia deveriam constituir a essência da adultez política.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A PALAVRA DO MOMENTO: ESTRATÉGIA


Por estes dias, por razões várias, muito se tem falado de estratégia. O termo banalizou-se na boca de alguns, porventura levados pelo significado mais superficial e não pela extensão do mesmo. Eu diria, talvez, mais pela aparência e ou subjectividade de alguns dados do que pelo estudo e definição de um caminho. A evolução do comportamento das organizações determinou que de uma situação estável no início do século passado, tornou-se reactivo, centralizado, lento e ineficiente aí por meados dos anos trinta e, logo depois, a gestão estratégica foi evoluindo no sentido do desenvolvimento de uma posição concorrencial nos espaços de competência, da capacidade de manobra e posição de força em função da turbulência do ambiente, isto é, do "mercado das ideias", mas também pela necessidade de garantir uma capacidade de reserva, uma vez que é tão importante o ataque como o domínio da arte da retirada.


O que por aí leio não bate certo com aquilo que nos trouxe, entre muitos outros, Alfred Chandler, Peter Drucker, Henry Mintzberg, Ansof , Chiavenato ou Michel Godet. Ser pensador estratégico (desde T'ai Kung - 900 aC, Sun Tzu - 500 aC entre tantos e tantos até aos dias de hoje) e homem de acção tem muito que se lhe diga, porque atravessa toda a História. Da arte da guerra até ao âmbito gestionário.
No aspecto que, em abstracto e em síntese, aqui me trás, quando em causa está um pensamento prospectivo sobre o futuro, seja ele qual for, consubstanciado no apelo à imaginação e ao sonho em função da dinâmica social, na capacidade de prever e de ousar, de escolher, apreciar e de considerar os elementos da equipa, de saber imaginar os movimentos possíveis em várias jogadas, tudo isto implica um acrescentado conhecimento para que se possa falar de uma eficaz atitude estratégica. Só depois vem o planeamento com os seus, pelo menos dez princípios: o da integração, o da coerência, participação, equilíbrio, globalidade, prioridade estrutural, transformação graduada, interacção, flexibilidade e optimização dos meios. Por aí fora. Portanto, a estratégia não corresponde e não pode corresponder à boa vontade inscrita em meia dúzia de folhas A4, com enfeitadas palavras, mais ou menos programáticas, falhando nos extensos pressupostos que enformam o domínio dos factores básicos. Não basta, repito, boa vontade, mas conhecimento assertivo, uma experiência acumulada e permanente correcção dos erros antes cometidos.
Significa, portanto, que tais domínios só estão ao alcance de quem os estuda, pacientemente, tal qual um jogador frente a um tabuleiro de xadrez, até porque qualquer decisão deve ser, sempre, estruturante, isto é, deve comprometer, profundamente, o futuro. As jogadas não pensadas provocam danos. O sucesso não é possível apenas com a boa vontade de amadores. Não se consegue com aprendizes de feiticeiro. Não se consegue com ausência de qualidade. É por isso que algumas organizações têm êxito e outras não. Uma organização, seja de que tipo for, da empresarial à política, carece de pessoas qualificadas, desde os líderes, no vértice estratégico, à linha hierárquica descendente até ao patamar operacional. Se assim não acontecer, a organização tende, naturalmente, a falhar na sua vocação e missão, a falhar nos objectivos ou metas, nas próprias estratégias, nas políticas e nos procedimentos. De resto, complementarmente, quando as organizações não se viram para fora, antes desenvolvem uma cultura virada para dentro, em função de interesses muito específicos e particulares, não há estratégia que as valham. A estratégia nasce da criatividade, da inovação, transporta uma visão de longo prazo, construída passo a passo, pelo que estes aspectos, determinantes, não se coadunam com pessoas impreparadas.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 21 de janeiro de 2018

ONDE SE FALA DE COSTA(S) LARGAS E DE BICICLETAS BT(T)


Escrevo com a liberdade de pensamento que me assiste. Entendo que respeitar a democracia é uma coisa, reflectir sobre o futuro é outra. E essa leitura posso e devo fazê-la. É-me legítima. Os militantes do PS-Madeira votaram no senhor Emanuel Câmara. Fizeram a sua escolha. Está feita e ponto final. Diferente da minha. Oxalá esteja eu completamente enganado, mas estes resultados, infelizmente, não auguram nada de bom. Continuo a defender que o político mais bem preparado para governar foi, internamente, preterido. A Madeira precisava de um político de qualidade no sentido do pleno domínio de todos os dossiês da governação, coisa que, obviamente, não se aprende de um dia para o outro, nem com blá, blá, sobretudo no concernente a dossiês determinantes, caso concreto, da Economia e Finanças, verdadeiro calcanhar de Aquiles da Região. Fazer projectos no papel, estou a falar da elaboração de "moções" é uma coisa, possuir inteligência política para os implementar é outra. Aliás, os vencedores sabem-no bem, que o exercício da política séria e consequente não se consegue, apenas, com largos sorrisos e "soundbytes" de circunstância.


Não quero saber das razões mais substantivas, das maquiavelices ou da opacidade de todo o percurso que, aliás, foi público e notório. Há muito que é assim, que o subterrâneo funciona. Foram perceptíveis algumas passagens na comunicação social. Percebeu-se que houve e que há "costa's" largas neste processo e, como hei-de dizer, bicicletas todo o terreno, de marca BT(T) a funcionar de acordo com inegáveis interesses pessoais e até com pontinhas de vingança relativamente a etapas anteriores. Mas isso é passado. De que vale chorar sobre o leite derramado, questiono-me. Porém, não esqueço as históricas habilidades no bas-fond. Fala-se, agora, de uma tal estratégia ganhadora e que, doravante, isto será sempre a abrir! Oxalá não fique a restar a continuidade dos estratagemas. Por aí será muito difícil atingir seja que objectivo for. É preciso qualidade, muita qualidade técnica e política para marcar a diferença. E a propósito, enaltece a edição de hoje do DN-Madeira: Carlos Pereira "fez crescer o PS-Madeira e deu-lhe credibilidade. E tanto assim foi que tornou a liderança apetecida. Perdeu mas deixa a fasquia alta (...)".  
Quem, um dia, se predispuser a fazer a História, do Surdo à Alfândega, certamente que terá de escrever sobre acções ardilosas e armadilhadas que agora atingiu o seu apogeu. Não tenho paciência para chafurdar nas maquiavelices, mas  preocupa-me o futuro. O meu Amigo Arquitecto Luís Vilhena escreveu que nas recentes eleições ficou claro que "o PS Madeira não estava preparado para o Carlos. E apesar de todos reconhecerem a sua competência, era-lhes muito difícil engolir isso". Eu penso que sim. Essa foi a posição de toque à qual se juntou a luta pela continuidade de um emprego na política. Por conseguinte, qual estratégia! 
Seja como for, depois desta vitória do senhor Emanuel Câmara, bom seria que mudasse de opinião (penso, também, que é tarde) apresentando-se, em 2019, com a tal estratégia ganhadora, como cabeça de lista e candidato a presidente do governo. E que o Dr. Paulo Cafôfo regressasse à sua predisposição inicial, isto é, a de governar a cidade do Funchal, o melhor possível, até ao final do mandato, com possibilidades de renovar o mandato. Diz o provérbio "quem tudo quer, tudo perde". E a tal "estratégia" pode conduzir a dois pássaros a voar. Cuidado. 
Jamais voltarei a escrever sobre este tema. Se, em Outubro de 2019, não tiver razão, oxalá não tenha, obviamente, que aqui virei exultar a vitória do meu partido político. Para já, com toda a minha sinceridade, deixei aqui o que penso. Que sejam felizes!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 20 de janeiro de 2018

NÃO É CONVERSA DA OPOSIÇÃO É DA ORDEM DOS MÉDICOS


"HÁ UM SECRETÁRIO QUE DEVE LIDERAR OU ENTÃO MUDE-SE O SECRETÁRIO"


A entrevista do Dr. António Pedro Freitas, líder da Ordem dos Médicos na Madeira é de uma frontalidade pouco habitual. Daí que lhe enderece os meus parabéns. Nas vésperas de um debate na Assembleia Legislativa da Madeira sobre questões do Sistema de Saúde, a radiografia do sistema, publicada pelo DN-Madeira, coloca o governo regional e, particularmente, o secretário da Saúde, em maus lençóis. Fala de um sistema bicéfalo, de clima de intimidação e ambiente pesado e amordaçado, de maus indicadores, de manobras estatísticas, portanto, manipuladas, de perda de idoneidade formativa, de um sistema refém das mesmas ideias e do mesmo modo de pensar e agir, de marasmo e indiferença, que a culpa é sempre dos outros ou morre solteira, enfim, sendo assim e pelo que li, estão explicados, entre outros, dois factos: primeiro, este mandato regista (já) três secretários e substantivas alterações no quadro da administração e direcção clínica; segundo, a verdade dos vários trabalhos publicados pelo DN-Madeira, denunciando o caos no sistema pelas mais variadas razões. Não se trata de perseguição, mas da realidade.
Uma entrevista do jornalista Élvio Passos, a ler com atenção, mais que não seja para que percebamos o estado de saúde da Saúde na Região. A situação a que chegou, que é transversal a todo os sectores do governo, demonstra que há uma absoluta necessidade de mudar de políticos e de políticas.

A entrevista pode ser lida AQUI
Ilustração: DN-Madeira

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

RUI RIO DAQUI A DOIS ANOS? VÁ PARA A SALA DE ESPERA DO DIABO


In Expresso Diário, 17/01/2018



Por Daniel Oliveira, 

Fazer previsões a dois anos de distância é absurdo. Muita coisa pode acontecer a um governo que ainda está a meio do mandato. E muita coisa pode acontecer nos meses anteriores às eleições. Há, no entanto, algumas coisas que sabemos pela experiência das últimas décadas. Que só ao fim de muito tempo, por cansaço acumulado, governos caem em tempos de recuperação de rendimento e emprego. Vivemos muito embrenhados nos casos mediáticos, mas continuam a ser as condições materiais de vida dos cidadãos que determinam, antes de tudo, o seu voto. Mesmo o PSD e o CDS, que conseguiram um dos piores resultados da direita nacional nas últimas eleições, só ficaram (coligados) à frente do PS porque no ano anterior reduziram drasticamente as medidas de austeridade, permitindo um alívio nas carteiras dos portugueses.

Não há, com os dados que conhecemos, nada que aponte para a derrota do PS e do conjunto da esquerda nas próximas eleições. Mesmo os incêndios tiveram, se olharmos para as sondagens e para as eleições autárquicas depois de Pedrógão (mas antes de outubro), pouco efeito no sentido de voto. E é difícil um governo passar por maior tragédia do que aquelas. Quanto à degradação da qualidade dos serviços públicos, que se agudiza desde o início do século, pouco se pode fazer dentro dos constrangimentos europeus que a maioria do país aceita. Andamos apenas a adiar o colapso. Dificilmente algum governo conseguirá fazer o milagre de continuar a ter um superavit primário e não rapar no fundo do tacho do Serviço Nacional de Saúde e do Estado Social.
O que pode acontecer à “geringonça” é interno à “geringonça” e será, mais do que o PSD, determinante para a divisão de votos. Se as pessoas perceberem que Bloco de Esquerda e PCP estão empenhados, de forma ativamente crítica, numa solução à esquerda, os três partidos partilharão os resultados de um mandato globalmente positivos. Se os sinais de rutura forem claros ou mesmo explícitos, o PS terá condições para conquistar uma maioria absoluta.
Compreendo o raciocínio que Rui Rio, de forma um pouco cândida, tentou explicar a Pedro Santana Lopes: se o PSD disser que não viabiliza um governo minoritário de António Costa os eleitores de centro-direita tenderão a votar útil no PS, para que ele governe sozinho. Ele não disse que eram os de centro-direita, mas digo eu. Porque, como indicam todos os estudos de opinião, a esmagadora maioria dos eleitores tradicionais dos três partidos da “geringonça” estão satisfeitos com esta solução. Mesmo os eleitores socialistas parecem, depois da experiência de Sócrates, confiar mais num PS dependente de outros partidos do que numa maioria absoluta. E os eleitores do BE e do PCP, mesmo que gostassem de ver este governo ir mais longe, preferem ver os partidos em que votaram a determinar aspetos fundamentais da governação do que a ouvi-los apenas a protestar, na oposição.
Na realidade, a “geringonça” agrada, segundo todas as sondagens, a mais pessoas do que aquelas que votaram nos três partidos que a construíram. Ignorar isto é construir castelos no ar. Claro que se a economia e o emprego correrem mal tudo isto muda. Mas, com os dados que temos, o discurso baseado na ideia de “libertar o governo das garras da extrema-esquerda” dirige-se aos convertidos. Não tem qualquer efeito num eleitorado de centro que não se sente no meio de um processo revolucionário. O país não vive nas redes sociais nem é representado pelos colunistas.
Os apelos ao bloco central também não têm qualquer futuro. Bem sei que muitos se convenceram que António Costa fez nascer a “geringonça” por mero taticismo. Também foi isso. Todos os momentos históricos misturam estratégia e tática, premeditação e conjuntura. Mas quando Costa deu este passo, que tudo indica que já tinha sido discutido com o PCP antes das eleições, olhou para o futuro. Percebeu que com dois partidos médios à sua esquerda as maiorias absolutas iam ser cada vez mais excecionais. Sem quebrar o tabu ficaria eternamente dependente da direita para governar. E Costa, que é tudo menos falho de instinto político, sabe o que está a acontecer aos partidos socialistas e social-democratas que se mantiveram num bloco central anacrónico: estão a morrer. Do PASOK ao SPD, passando pelos socialistas holandeses. É por isso que o PSOE se recusa a qualquer entendimento com o PP e o Labour virou à esquerda. Mesmo o SPD resiste até ao limite na renovação do acordo com a CDU. António Costa não descobriu a pólvora. O bloco central só não foi dinamitado onde não havia qualquer alternativa. Só se fosse louco é que Costa preferia depender do PSD, tendo de lhe ceder e deixando livre o espaço de crescimento à sua esquerda. Só haverá um governo socialista dependente do PSD se BE e PCP o quiserem. E se o derem a entender antes das eleições até é provável que ofereçam uma maioria absoluta ao PS. Com os dados que temos hoje, esse é um filão sem futuro.
Não sei se Rui Rio trabalha para os próximos dois anos ou tem uma visão que ultrapassa as próximas eleições. Se o seu prazo de validade são as próximas legislativas, não há grandes razões para o PSD estar otimista. Resta-lhe a mesma estratégia de Passos: esperar que as coisas corram mal na economia. E, desta vez, tentar que os portugueses não notem a sua esperança. Se, pelo contrário, pensa para depois de 2019, tem tempo para se construir como alternativa.
Se não se perder em diatribes liberais que agradam a meia dúzia de colunistas, Rui Rio pode representar com eficácia a direita nacional. Basta acrescentar ao programa que a direita tem há anos (fazendo dele menos alarde ideológico do que Passos Coelho) um vago patriotismo simbólico. E, como estilo de liderança, alimentar um distanciamento altivo em relação ao burburinho mediático, que lhe é natural e o distingue de Marcelo. Rui Rio tem tudo para ser melhor cavaquista do que Cavaco. Tem o perfil ético que sempre faltou ao anterior Presidente da República e partilha com ele o gosto pelo exercício um pouco mais musculado do poder. Mas precisa de pelo menos seis anos para receber o poder como quase todos os últimos primeiros-ministros o receberam: por cansaço ou falhanço de quem está no governo. A questão é se resiste a tão longa travessia do deserto. Se é para daqui a dois, apenas mudou o turno dos que fazem política na sala de espera do diabo.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

QUANDO PROTESTAR SIGNIFICA APOIAR


Um texto do Padre José Martins Júnior
Publicado no seu blogue http://sensoconsenso.blogspot.pt/



Onde se meteu o Papa Francisco?! Os sábios da Antiga Grécia responderiam sem hesitar: o homem meteu-se entre “Cila e Caribdis”, duas divindades mitológicas, personificadas em monstros, rochedos e sorvedouros das embarcações, tal como o nosso “Adamastor” no Cabo das Tormentas, depois transformado em Cabo da Boa Esperança. Tudo está acontecendo nesta corajosa viagem ao Chile e ao Peru. Aliás, o argentino Bergoglio pisa um chão que é seu, que bem o conhece – a América Latina, um nó de paradoxos - e, por isso, mediu bem os riscos que corria. Facto insólito e único foi o protesto de uma multidão de mulheres e homens, empunhando cartazes contra o Vaticano, directamente contra o Papa, pela indiferença com que olhava para os escandalosos abusos de menores por parte do clero. Mesmo após o comovente pedido de desculpas em plena cerimónia litúrgica, diante de milhares de participantes, a população não se desmobilizou, pelo contrário redobrou a sua raiva. Facto único entre todas os países que o Papa visitou até hoje!


Mas o mais enigmático e assustador é o seguinte: toda aquela faixa da América Latina foi evangelizada, durante séculos, pelos missionários da Igreja Católica, os espanhóis. E o paradoxo não é menos desconcertante: em todos os outros países, de matriz constitucional não cristã nem católica – muçulmanos, budistas, inclusive ateus confessos - o Papa foi sempre ovacionado. E, pasme-se, é num território, secularmente católico, que ele é protestado, invectivado e verbalmente agredido!
Como terá reagido Francisco a estes clamorosos protestos? Mal, dirão uns. Magoado, segundo outros. Pessimamente, comentarão outros ainda, perante os gritos ululantes dos manifestantes, “Ficou tão feio fazer aquilo” . opinarão os ‘piedosos’ beatos.
Desculpar-me-ão, mas hoje estou contracorrente. Eu acho que o Papa ficou mil vezes agradecido, porque intimamente e externamente reforçado nos seus planos de acção. Justificando: tenho repetidamente afirmado que as transformações na Igreja não podem ser obra do poder hierárquico. As hierarquias não querem ser incomodados nem, muito menos, apeadas dos seus cadeirais de conforto e poder. Por isso que a sua iniciativa inovadora é uma falácia, senão mesmo um perigoso embuste. A evolução das sociedades, para ser perfeita e segura, tem de partir dos seus próprios constituintes, o povo, a comunidade. Bastas vezes tenho aqui citado o pensamento de um grande intelectual cristão: “A Igreja não precisa de um líder extraordinário, excepcionalmente iluminado. Isso vai contra o plano de J.Cristo na história”. Para não tirar ao Povo cristão o seu poder de iniciativa, interventivo e eficaz. 
Não há sombra de dúvida de que este Papa tem sido um acérrimo fautor de mudança no Vaticano, um autêntico revolucionário nesta área, mormente quanto às estruturas caducas da Cúria Romana. Para uns – os cardeais – ele tem de ser condenado por heresia. Para outros – os verdadeiros obreiros do Evangelho – ele já deveria ter ido mais longe. É neste último registo que se situa Francisco. Ele quer ir muito mais além. Mas com quem conta ele nesta cruzada renovadora? Os cardeais, os bispos, os clérigos? Nem pensar. Ele só pode contar com as bases, o Povo que constitui a massa e o fermento da Vida. Sem o apoio das comunidades de base, ele não pode sozinho abrir caminho. Precisa da nossa palavra e da
nossa acção. No último número da revista Philosophie, razão tinha o editor em formular a pergunta: “Porquoi est-il si diffile de changer”?
Da presente nota justificativa, concluo que os protestos da multidão –“Entregue à Justiça os pastores, bispos e padres, abusadores das crianças” – terão desagradado à ala dos velhos cardeais de cruzes de ouro ao peito, mas agradaram fortemente ao Papa Francisco que, no seu íntimo, decerto sentia e quereria dizer, emocionado; “Gritai, gritai mais forte, dai-me estímulo para agir”. Aliás, ele acaba de dizê-lo, agora à noite, na missa para os jovens: “ O vosso país, o mundo, a Igreja precisa que vocês a interpelem”!
Em jeito de resposta à pergunta da revista citada, a analista Catherine Malabou, após monitorizar as três causas do fenómeno – o hábito, o medo, a dificuldade – aconselha assim o filho e, nele, a todos nós “É preciso perder o medo de partir. E porque somos plásticos, ágeis, nada nos há-de quebrar, saberemos adaptar-nos e estar à altura do momento”.
Para aí o Papa nos convida e nos convoca!

17.Ja.18
Martins Júnior

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

SERIA PREFERÍVEL, MENOS VISITAS, MENOS PALAVRAS E MAIS GOVERNO


Será que a Madeira ainda tem presidente do governo? A governar não se dá por ele. A máquina parece que funciona mesmo sem o líder e sem alguns outros secretários. O sistema está montado, diariamente, cada um oleia a dita, umas palavrinhas aqui e outras ali, uma afinada orquestra na Assembleia e o número fica feito. É pouco. Às vezes tenho a percepção de uma permanente campanha eleitoral. Uns beijinhos aos velhinhos, umas idas às "casas do povo", uma presença em momentos mais ou menos festivos, convívios e umas inócuas palavrinhas de circunstância é o que está a dar. O Senhor Presidente da República parece ter tido influência. Só que ele não governa, acompanha, sugere e critica quando entende que o deve fazer. O daqui, nas funções que desempenha, só faltam umas selfies, tem tantos dossiês que o deveriam preocupar, porém, a imagem que fica é a de pouco ter a ver com isso. O vice-presidente e os secretários que resolvam.


O problema é que os secretários demonstram andar aos papéis. Atente-se no sector da Saúde, onde, lamentavelmente, pelas mais variadas razões, é notícia menos agradável, quase todos os dias; atente-se no sector da Educação que, tal como um reloginho abre e fecha a horas, repete e repete os erros, sem qualquer rasgo de inovação e de pensamento estruturante portador de futuro; atente-se nos Assuntos Sociais, cuja Senhora Secretária, sempre sorridente, anda por aí a cumprimentar com o chapéu alheio (a Segurança Social é Nacional), desdobrando-se em visitas, todavia, sem uma visão da importância deste vital sector, mormente ao nível das políticas de família, do trabalho com dignidade, da pobreza, da habitação, por aí fora. Teci considerações sobre estes três pilares da governação, e os outros? Que dizer da Economia e das Finanças, por exemplo? Basta estar atento ao que dizem os empresários e a tudo aquilo que é motivo de peças jornalísticas e até de "cartas dos leitores". 
Não escrevo apenas pelo sentido crítico face ao meu posicionamento político-partidário. Faço-o enquanto cidadão, pela constatação dos factos, até porque esta cor política está há 42 anos no poder com maioria absoluta. Era tempo para a Madeira ser outra, não nas estradas e outros equipamentos, o mais fácil de concretizar (desde que haja dinheiro, empreiteiros não faltam), mas no equilíbrio e justiça social, nos diversos sectores estruturantes, na abertura ao mundo, na mentalidade e na capacidade de trazer o futuro ao presente. A Madeira continua com uma Autonomia de papel, com um Estatuto que se fica pelas palavras, é preciso dizê-lo, do ponto de vista institucional, de quase um Estado dentro do Estado, com muita gente em serviços, alguns absolutamente dispensáveis e onde uma clique que se apoderou dos sectores estratégicos faculta a ideia de que tudo é realizado pelo bem-estar do povo. A prova está aí, nos desequilíbrios, nos gastos supérfluos, no não atendimento das prioridades, na gritante e muitas vezes escondida pobreza, na despesa pública e no preocupante desordenamento territorial. Hoje, questiono, ninguém é capaz de prognosticar a Madeira a dez, quinze, vinte anos! Simplesmente pela ausência de rigoroso planeamento. A Administração da coisa pública é feita ao dia, à semana e ao mês. Com alguma benevolência, de orçamento em orçamento, porém desarticulado de um objectivo maior. Preocupante.
E enquanto isto acontece, a agenda dos governantes e do grupo parlamentar da maioria continua preenchida com uma ida ali, outra ao virar da esquina, umas palavras de circunstância, umas decisões em plenário sobretudo para apoios associativos, porém, aquilo que se me afigura determinante muito pouco acontece. Ora bem, seria preferível menos visitas, menos palavras e mais governo.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A DEMOCRACIA EXIGE DEBATE


O fermento da DEMOCRACIA é a participação. Ou participamos ou os processos morrem! Quando se participa, obviamente, discute-se, debatendo. É a luta entre contrários que mobiliza o pensamento e a definição de percursos para um objectivo. Foi isto que Abril trouxe: a liberdade de exteriorizar, de pensar diferente, de inovar e de criar os pressupostos do desenvolvimento. Uma participação sem debate equivale a um jogo sem bola e balizas. Cada um fica no seu campo, mesmo que o árbitro, de nome pomposo COC, tenha dado início à contenda. Portanto, não debater a coisa pública talvez signifique, igualmente, negar todos os espaços onde ele acontece, desde a Assembleia Legislativa até à mais recôndita Assembleia de Freguesia. 


É ininteligível por uma outra razão que me preocupa. Os partidos políticos constituem instituições da sociedade. Nascem e vivem por necessidades organizacionais de administração e gestão da sociedade. Daí que não devam ser núcleos fechados, impenetráveis e sem qualquer vínculo à sociedade. Cada vez mais devem ser estruturas abertas e disciplinadas em redor dos seus princípios orientadores. E porque representam a diversidade do pensamento dos cidadãos, logo, a estes interessa-lhes conhecer as pessoas e os projectos que entendem por necessários. Sem esse cordão umbilical alimentador de expectativas, a eficácia das instituições perde ou tende a não fazerem sentido. 
Portanto, um partido político é muito mais do que a soma dos seus militantes. Se, por um lado, por estatuto, compete aos seus membros eleger os respectivos órgãos, por outro, o que pensam e querem para a sociedade ultrapassa, largamente, o âmbito interno. Ao que vêm e os seus projectos deve ser do conhecimento de todos, porque todos são, tarde ou cedo, eleitores. A DEMOCRACIA implica esta abertura e transparência sobre as três grandes perguntas: onde estamos, onde querermos chegar e que passos pretendemos dar para lá chegar. Fintar este processo não me parece sensato. Meter-se na toca é inexplicável à luz do cidadão  atento. Ora, situados neste nível de exigência, o debate não pode ser de "roupa suja" ou de mesa de café, mas de conhecimento sobre o que preocupa a sociedade e o seu futuro. Desenhá-lo e explicá-lo à frente de todos no concernente à Economia, às Finanças, à Educação, à Saúde, aos Assuntos Sociais, ao Ambiente, à Agricultura e Pescas, por aí fora, constitui, assim, uma condição primeira para que os eleitores percebam e, eventualmente, adiram. As campanhas eleitorais começam por aí, o resto são quinze dias de "folclore"!
Ilustração: Google Imagens.