domingo, 22 de novembro de 2009

A SOCIEDADE QUE ESTAMOS A CONSTRUIR

Há dias, na Assembleia Legislativa da Madeira, produzi uma intervenção orientada, fundamentalmente, para a sociedade que estamos a construir. Hoje, com grande oportunidade, o DN-M insere um importante trabalho da autoria do Jornalista Ricardo Duarte Freitas sobre as causas do suicídio. A páginas tantas, o juiz do Tribunal de Família e Menores, Dr. Mário Silva, sugere uma reflexão sobre o actual modelo de sociedade que estamos a construir para os jovens. "O suicídio e o parassuicídio (tentativa de suicídio) são problemas que naturalmente me preocupam e que me levam a reflectir sobre o modelo de sociedade que estamos a construir, nomeadamente para os nossos jovens, com a busca exaustiva da perfeição aos vários níveis e com expectativas por vezes excessivamente altas". Eu diria que o Juiz tocou, exactamente, no núcleo central do problema, isto é, na organização social.
Na colisão de vagas (agrícola, industrial e pós-industrial ou superindustrial), na superluta de que fala Alvin Toffler (1984, pág. 13), geraram "novos estilos de família, modos modificados de trabalhar, amar e viver, uma nova economia e novos conflitos políticos". É esta vaga, eléctrica, nervosa, sustentada na febre do "ouro" e na riqueza rápida, que levou Toffler ao contraponto: "(...) agora que a civilização da Terceira Vaga fez o seu aparecimento, implicará a industrialização rápida, a libertação do neocolonialismo e da pobreza ou, pelo contrário, garantirá a dependência permanente? (...)". Da pertinência da questão eu diria que ficámos, inexoravelmente, pela dependência permanente. Passámos da Sociedade da Manufactura para a Sociedade de Mentefactura, na feliz síntese de Luís Cardoso. É verdade que, o que hoje está em causa, não é o músculo mas a cabeça e a FACTURA. De forma rápida e sem acautelar todas as variáveis. E isso, tal como salientou David Vice, da Northern Telecom, determinou que os anos noventa e seguintes ficassem para a História como a década da pressa e da cultura do nanosegundo. E foi mais longe, concluindo com a ideia-chave que, no futuro, aquele que estamos agora a viver, "só haveria lugar a dois tipos de gestores: os rápidos e os mortos". Posição, aliás, compaginável com a perspectiva que Peter Drucker (1992) quando referiu que sendo estes tempos de mudança logo seria "preciso estar preparado para abandonar tudo ou então desertar do barco".
Ora bem, é esta pressa, esta loucura de viver, esta cultura de um mundo organizado a partir do nanosegundo, que é provocadora de um ambiente à escala global de grande instabilidade e turbulência. Hoje vive-se um mundo orientado para a diversidade, para o cliente em permanente mutação e para as novas necessidades traduzidas diariamente por uma moda que se transforma a uma velocidade vertiginosa. Como salientou o meu Amigo Doutor Gustavo Pires, temos de aceitar que este século que agora dá os primeiros “passos” será o século das incertezas, do desenvolvimento tecnológico, da pressão demográfica, do pragmatismo, pelo que se vivem, por isso, tempos difíceis, tempos de confronto entre o novo e o velho, o Norte e o Sul, o interior e o litoral, o local e o global, o formal e o informal e é neste quadro de paradoxos que hoje se organiza o mundo em geral e as nossas vidas em particular. A única segurança estará (?) na nossa capacidade de ultrapassar as dificuldades e os desafios deste novo século. E isso só se conseguirá pela imaginação e pelo conhecimento, sustentados em amplos processos de formação democrática.
De qualquer modo, tenho muitas dúvidas sobre o caminho que estamos a trilhar. Considero, para já, que caminhamos para a tragédia. Os sinais são evidentes, pela ausência de participação democrática, pela imposição dos vários directórios mundiais que conjugam interesses sem fim, pela sensível incapacidade dos políticos (circunscrevo-me, agora, ao País e à Região) gerarem as condições necessárias para definirem os princípios de uma nova organização social. Creio que este vale tudo, independentemente das situações de natureza patológica, só pode gerar depressão e morte. As posições do Psiquiatra, Dr. Ricardo Alves (DN), são muito claras sobre o problema do sucicídio. Vale a pena ler o trabalho publicado.
Fotos: Google Imagens.

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